quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Semana da Ciência

No início desta nova temporada de desova tivémos o prazer de participar na Semana da Ciência a decorrer na Ilha do Príncipe. Foi nos dado a oportunidade de fazer uma apresentação sobre tartarugas, medidas de conservação, investigação e apresentar resultados já disponíveis sobre as populações de tartarugas marinhas da ilha e o uso das praias pelas mesmas. A entrada era livre e a participação das pessoas foi muito positiva. A palestra foi apresentada pelo Biólogo Marinho Rogério Ferreira, colaborador do Parque Natural do Príncipe e CTM, mas foi enriquecida com a presença de outros membros da CTM, do Governo, de ONG’s, cooperantes, investigadores, artistas, pescadores e outros cidadãos interessados no tema.

Durante o espaço reservado para diálogo apareceram perguntas bem pertinentes e inteligentes. Uma delas abordou a vinda de pessoas de fora, que não conhecem ainda a realidade local, proibir a captura de tartarugas quando isso é uma actividade que sempre aconteceu, logo tradicional, e quando nos seus países de origem existem espécies ameaçadas que continuam a ser capturadas. Inclusive foi referido que até à independência do país existia regulamentação que permitia a sua captura desde que sustentável, ou seja, algo semelhante a licenças, tamanhos mínimos e quotas que faziam esta uma actividade sustentável, como ainda acontece em alguns países do mundo.

A resposta abordou o tema que o trabalho de investigação e conservação é independente da proibição ou não da captura de tartarugas. Quem decide sobre a proibição é o Governo e nós, como técnicos especializados, apenas recolhemos e analisamos dados científicos sobre as populações de tartarugas a fim que as decisões de gestão, como essa, possam ser tomadas com base no melhor conhecimento disponível. No entanto a iniciativa do Governo regional de proibir a captura é visionária e de louvar, principalmente quando o Príncipe é agora Reserva da Biosfera. Embora não existam dados que indiquem se a população de tartarugas do príncipe está a aumentar, estabilizada ou a decrescer, na Região de Gestão Oeste Africana sabe-se que o declínio é acentuado. Desta forma como medida precaucional, e espelhada na Lei das Pescas de São Tomé e Príncipe, a Região Autónoma do Príncipe chegou-se à frente e legislou, restando esperar que o Governo tome medidas, seja seguindo o exemplo do Príncipe ou regulando a captura. Isto para que as novas gerações possam também conhecer este animal carismático e fonte de riqueza num futuro sustentável.


Dentro de outros temas abordados ficou claro a necessidade de ter informação científica e envolver a comunidade para chegar às soluções que melhor se adaptam localmente e que só assim poderão funcionar. Isto porque é norma serem implementadas medidas vindas directamente de outros países que acabam por não funcionar devido às realidades físicas, biológicas e sociais serem diferentes. Como é o caso do transplante dos ninhos para cercados de incubação, entre outros alterando as proporções sexuais e pondo em perigo a sobrevivência futura das populações, quando actualmente existem inúmeros métodos de proteger os ninhos no local que a tartaruga escolheu. 

Relevante foi o assunto da necessidade de se fiscalizar as Águas Territoriais e a Zona Económica Exclusiva para poder combater o principal responsável pela extirpação das tartarugas marinhas, a pesca industrial (e.g. arrasto, redes de deriva) que ilegalmente opera um pouco por toda a Africa e pouco a pouco vão roubando e destruindo o património natural dos países carentes de meios de fiscalização das suas águas. O tema relevante da poluição luminosa também surgiu, o desenvolvimento costeiro é o maior responsável para a sobrevivência das tartarugas marinhas na região, a seguir à captura acidental em artes de pesca, e espera-se que os promotores locais olhem para a necessidade de controlar essa poluição. À semelhança com o efectuado pelo Bom-bom Island Resort que reduziu fortemente o impacto negativo da iluminação através de pequenas modificações (ver artigo)

terça-feira, 28 de maio de 2013

Investigação e Conservação

Mais uma temporada de investigação e conservação em andamento. Sem tartarugas marinhas a desovar nesta época do ano, chamada localmente de Gravana, mas com muitos encontros durante as saídas em apneia ao redor da ilha. Infelizmente continua-se a ser comum encontrar, dentro de água e em terra, evidências da captura de tartarugas marinhas. Inclusive a pesca com bomba, de peixe mas com repercussões negativas em todo o ecossistema marinho, parece estar a tornar-se demasiado frequente pois já escutámos perigosas explosões enquanto trabalhávamos dentro de água.
Com o esforço e empenhamento do Governo Regional da Ilha, bem como com a capacitação e sensibilização da população local, esperamos que estas actividades danosas para o ambiente cessem rapidamente e as tartarugas encontrem no Príncipe um local seguro para viver, reproduzir-se e serem observadas.

segunda-feira, 4 de março de 2013

SWOT - State of the World’s Sea Turtles

Recentemente foram tornados acessíveis dados actuais e compreensíveis sobre a desova das tartarugas marinhas na ilha do Príncipe. Isto através da rede global para partilha de dados científicos SWOT, State of the World’s Sea Turtles (http://seaturtlestatus.org/), organização que inclui nos objectivos apoiar o planeamento e desenvolvimento de acções de conservação.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

33rd International Sea Turtle Symposium

Mais uma vez a Comissão Tartaruga Marinha esteve presente no simpósio internacional sobre a investigação e conservação das tartarugasmarinhas. Este ano o encontro, na sua 33ª edição, teve lugar de 2 a 8 de Fevereiro na cidade de Baltimore no estado de Maryland nos EUA. Além de se apresentar um poster com alguns dos novos resultados da investigação também houve a oportunidade de efectuar uma comunicação oral e reunir com os restantes colegas que trabalham em países africanos a fim de planear uma estratégia conjunta, tirando-se partido que o tema deste ano serem as “conexões” pois desde há muito que se sabe que só com essas interligações e uniões é que se poderá atingir a meta desejada, que é a integração das comunidades locais na restauração das populações de tartarugas marinhas para que todos possam cumprir o seu papel ecológico na biosfera que é o Planeta Terra.

Existiu tempo e disponibilidade mutuas para se estabelecer acordos para a prossecução dos objetivos a nível regional e mundial, incluíndo reuniões com os maiores dadores internacionais para a conservação das tartarugas marinhas. Dessas conversas ficou claro que enquanto as diferentes entidades que desenvolvem actividades na ilha do Príncipe, e também em São Tomé, não começarem a trabalhar em conjunto esses apoios dificilmente chegarão. Desta forma é urgente que novas organizações a trabalhar no Príncipe assimilem que devem respeitar e colaborar com as que já se encontravam no terreno pois de contrário, com a sua presente estratégia de “divide and rule”, apenas se está a estragar caminho valioso já atingido e a criar complexidades inúteis que em nada favorecem o clima de unidade que se deve atingir para que o objectivo principal seja atingido, ou seja, o desenvolvimento sustentável da região com a melhoria da qualidade de vida da população e a preservação do meio natural e cultural onde as tartarugas desempenham um papel fulcral.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

E continua o trabalho...


Depois da caracterização das praias de desova de tartarugas marinhas na ilha do Príncipe, e respectiva abundância e densidade de tartarugas e ameaças por praia (link), é tempo agora para continuar a caracterização das populações de tartarugas que habitam as águas ao redor da ilha. O biólogo marinho responsável por esses estudos, Rogério Ferreira, procura detectar as áreas de maior importância para a conservação destes animais, à semelhança com o efectuado nas praias anteriormente, de modo a dotar o governo regional com dados compreensivos sobre estes animais e que poderão ajudar na gestão desta nova Reserva da Biosfera (UNESCO). Este trabalho, voluntário pois não existe qualquer tipo de financiamento a apoiá-lo, efectua-se em colaboração com o Parque Natural (CTM), pescadores submarinos do grupo Dragões do Mar, o Centro “Archie Carr” para a Investigação das Tartarugas Marinhas (ACCSTR - USA) e o Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve.

 
Rogério Ferreira é bolseiro de Doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia, Portugal, e Membro do Grupo de Especialistas em Tartarugas Marinhas da UICN (MTSG) e da Sociedade Internacional Tartarugas Marinhas (ISTS).